Deixo-me afogar num lago vazio.

O vento está a soprar lento, lento, e ainda assim ecoa no transpassar das lacunas. Mas hoje não é dia para dizer do vento. Não é dia para dizer da luz que desce fria e oblíqua. Hoje não é dia para soar poético, é dia para soar torto. É dia para dizer que as palavras, tanto quanto os lugares, estão cansadas. Não sei se cansadas de esperar-me sumir ou se cansadas de esperar-me existir, mas estão decerto cansadas. Há algo que já não suportam. E é por isso que não digo do que vem de fora, porque o que vem de fora é sempre igual. Sempre o vento calmo, sempre a luz frígida e tímida, sempre o murmurinho distante a tirar de mim a concentração devida. Mas há algo, e algo aqui. Algo que percebo, apenas, algo que não sei o quê, mas que sinto estar no limiar do seu fragmentar absoluto. Pois que seja, hoje digo das palavras, das palavras que vêm de mim. Mas, se é dia para dizer das palavras, reservarei poucas para ser sincera e dizer que é falso tudo aquilo que forjo de essência, seja com o grito ou com a calma, com o pranto ou com o sorriso. Já não me sinto uma, sinto-me várias e, pior, sinto-me contradizer. Hoje é dia para dizer que, quaisquer que forem, as palavras não podem carregar esse peso.

Disse. Mas digo sempre sabendo que ainda fica algo por dizer. Algo que percebo, apenas, algo que não sei o quê.

Sendo suscinta.

Se persisto em ceder sempre a um impulso de cobrança e de censura, é porque me entrego muito vorazmente a mim, tendo como condição para a minha própria identificação o exercício de alguma autenticidade. Incompleta, que seja, mas ao menos na proporção que me seja alcançável deter, nos gestos, nos pensares, nas palavras, nas ações. E é porque não tenho como almejar a essa autonomia sem trazer para mim, e somente para mim, a responsabilidade pelos atos, que termino em desembocar em reflexões pontiagudas e remorsos infindos. E não posso retroceder a essa atitude, porque muito repetidamente constatei que a cópia consciente é um absoluto impedimento à minha felicidade – esta consciente ou não.

Eis-me, a branquidão.

Sinto-me de repente existir, num relance de liberdade, mas sem certeza de alegria ou satisfação. E sem vontade de certeza. Sinto-me, apenas. Sinto-me e vejo-me no tempo, a me envolver por um vento frio que me transpassa e me ambienta. Sei que tenho ainda em mim o gosto amargo, e fragmentações infindas de uma dúvida fluida, a proliferar uma interrogação incômoda pela voz, pelo gesto, pelo corpo, mas que se esvai conforme deixo-me isolar das necessidades e entrego-me resignadamente a mim mesma. Só o que resta é o silêncio. E Ólafur Arnalds.

Do dever-sentir.

E pedem-me para definir. Definir, ainda? Definir o que não sinto?

Posso dizer muito. Dizer muito sobre o que sinto sobre o que não sinto, mas não sobre o que não sinto propriamente. Mas, por ora, posso dizer nada. Posso só dizer das impressões. Posso dizer sobre o quanto me assusta a brusquidão com que se alterna o meu humor. Posso dizer sobre o quanto me incomoda ser a minha voz pouco firme e pouco pertinente à ideia que tenho das minhas palavras. Posso dizer sobre o quanto escapulo o incômodo por olhares inconsequentes e a alegria por sorrisos demasiado longos. Posso dizer sobre o quão ineficientes são as minhas tentativas em pertencer sinceramente ao vem de fora de mim. Posso dizer sobre o quanto sinto falta, depois de imersa em desesperança, daquilo que outrora me era intenso, contudo ácido. Posso dizer sobre o tanto mais que me distancio justamente enquanto me aproximo. Posso dizer sobre o inexplicável conforto que me abarca quando me isolo e só ruído dos pássaros me envolve a evitar o silêncio absoluto.

Então, posso dizer sobre isso que momentaneamente me delimita. Posso dizer sobre o quanto me basto com satisfações pequenas quando me encontro em paz comigo, ou posso dizer sobre o quanto me perco de mim e não me reconheço quando nego a minha insatisfação e escondo cuidadosamente tudo que essencialmente me define. Posso dizer muito. Dizer muito sobre o que sinto sobre o que não sinto, mas não sobre o que não sinto propriamente. E direi que me perdi, e que não tenho aonde voltar, porque os lugares todos não me conhecem senão pela farsa que já não reconheço, e porque não consigo me livrar, em mim mesma, de partes da enganação.

E direi daquilo em que culminou o não-sentir acumulado. Na falta do que sentir, só me restou sentir que não devia sentir que devia sentir. Direi que, hoje, a minha certeza mais recente, que se sobrepõe a todos os outros axiomas que admitia e que me mantinham íntegra, é a de que o mais intenso que posso sentir é o medo. E o medo de mim. Um medo que advém desse dever-sentir que me dilacera lentamente e que me distingue impiedosamente daquilo que eu achava que era e que descubro num espasmo não ser. Porque, pois sim, não sinto, mas no fundo não sei nem o que é que devia sentir. Mas fico a sentir que devia, com uma certeza que achava vir de fora, mas que agora sinto vir de mim.  E é exatamente esse dever-sentir eu nunca achei que ia sentir.

Cansei.

Sinto um ressentimento calado corroer-me todas as memórias. Se me fosse concedida a possibilidade de regurgitar-me juntamente com todas as vontades e sensações que não sei impedir, fá-lo-ia. Abdicaria de muita coisa de mim da qual me orgulho porque não me suporto mais. Não cabe em mim a contradição assim tão espontânea e irracional. A minha revolta é verdadeira, mas é mais repulsa que revolta. E dói demais saber que eu não me aguento mais. Sinto falta. Sinto saudade da sensação de autenticidade, de liberdade, sinto receio de já não haver o que me defina, condicionada que estou a tanto que não me pertence. Eu quero a minha alma calma por si mesma. Não quero o abraço, a voz macia, quero o frio, quero o silêncio. Quero bastar-me comigo e só. Só.

King Crimson – I Talk to the Wind

Se for ainda espontânea a percepção.

Dei-me um ou dois instantes, quando muito. Deixei-me sumir na branquidão, na calma forçada, no cansaço dos textos que reli com propósitos forçados. E num repente tive às mãos um desânimo sincero que me comoveu todos os sentidos. Tive a vontade de silêncio, de paz, e só. E pesou-me o cansaço despercebido. O cansaço, certamente. A irritação com o cheiro que me impregnava no corpo e que não era meu. Tive medo, outra vez, em proporções que já tinha esquecido poder o medo atingir. Tive vergonha e, mais do que vergonha, aversão. Senti repulsa e não soube definir o objeto dessa minha cólera. A indefinição estancou-me na garganta e roubou-me as palavras, os movimentos, as sensações. Pairo. Pairo em um ambiente que não o meu âmago, em um tempo que não a minha vida, em constatações que não os meus pensamentos. Pairo nesse desânimo que me invade e que lentamente eu redescubro meu, que me rememora em espasmos vagos a intensidade que perdi, e que me escancara a imprecisão dos rumos que estive a tomar anonimamente perante a mim.

Kammerflimmer Kollektief – Lichterloh

And I feel

This place is increasingly tired of these people we have turned into.

Para fazer-me valer.

Deixo-me perder sozinha e as luzes noturnas me embriagam. Distorcem-me o pensamento e escancaram-me a pluralidade de caminhos que posso definir meus. Detenho-me imóvel e reparo-me indefinida. Sem o contorno ainda que aberto de perspectivas e ilusões. Deixo-me passageira das circunstâncias e porto-me agora sem o intenso. O intenso me dilacera deveras. Perco-me entre os versos meus e os versos de outrem, perco-me entre o que disse e o que ouvi, perco-me entre o que penso e o que li. Puxam-me a mão de volta, e muito sinceramente não me lembro de ter sentido alívio. Sinto nada. Diante da desimportância do lado de fora, termino por sentir-me inesperadamente vazia de mim.

Sobre os ardores já amargos.

Sinto revolver-se por dentro de mim um ardor aflito. Um ardor cálido, contudo sem vontade, sem saudade, sem verdade. Um ardor que me tumultua as sensações, que me distorce os sentidos e me faz repugnar a voz rouca e frágil que profere minhas palavras gastas. Um ardor que transparece a mim a falsidade dos meus sorrisos e respostas prontas, um ardor que me escancara o  vazio, que me escancara a falta. Mas o meu ardor não é fome. O meu ardor não se manifesta, o meu ardor é calado. A chuva do lado de fora me apreende, e permeadas pelo ruído da torrente as conversas alheias sobem as paredes e me roubam a concentração, pondo-me num estado de agitação tal que sinto como se somente atirando-me à tempestade faço real a minha existência. Mas lembro da gripe, da tosse, e paro. E saio depois pela rua vazia e ensolarada a carregar essa desesperança frígida, a carregar a nostalgia dos dias que ainda não vieram e o remorso dos dias que recusei viver. Caminho em passos largos a carregar o cansaço, deixo pegadas sólidas marcadas pela minha desistência. Levo pacientemente a espera. Preocupa-me tão-somente estar a descobrir que não há pelo que esperar.

Sobre encaçapar a bola branca.

Uma palavra ou outra que se precipite, uma impressão ou outra que não se desvaneça. Bastam-me. Bastam-me para fazer ressurgir a desilusão, estraçalhar a alegria momentânea e evidenciar a morbidez de todos os sorrisos acumulados em meio às declarações fingidas. Deixei-me esvair por brisas aparentemente inofensivas, as lágrimas repousam todas  absolutamente inúteis, confundidas nas águas de garoas indiferentes.
Tenho-me por muitos instantes imprecisa. Tenho-me esquecido por entre as idiotices que me concedi proferir, apenas por comodidade. Tenho-me perdido, tenho-me abandonado. Tenho desaparecido e dói senti-lo sem ter meios para o evitar.
Tenho uma névoa que me recobre os olhos e me mantém inerte sem atrever um movimento sequer. Não sei se recordar é retornar ou avançar, por isso deixo-me ficar demasiado. Deixo-me recair em desassossego se já não tenho como me esconder de mim. Descubro em relances de espontaneidade algum resquício de verdade, de sinceridade. Agarro-me a tais momentos raros, mas a falsidade muito cruelmente me domina e me esmaga pelo peso da consciência abalada. Deixei-me aceitar, mas logo descubro a irrelevância, a nulidade, se agora sou eu que já não posso me aceitar.

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"No concentration, just a white disorder everywhere around me. You know I'm so tired now. Monochrome flat, monochrome life, only absence near me, nothing but silence around me."