O ano em que a ruptura veio foi também o ano em que eu finalmente pude deixar-me ser quem sempre fui. Dois mil e onze foi uma ducha de água fria que me desceu queimando. Uma ventania de alívio, porém gélida e áspera, a remexer uma vida que já se revelava abafada, sufocada e dolorosamente morna. Foi-me preciso calar uma parte de mim que me afastava de mim. Eu hoje amargo o gosto de ter acumulado derrotas por tentar ser quem não sou. Amargo o gosto de já ter me orgulhado de ganhar batalhas fúteis, mesquinhas. Amargo o gosto de já ter me perdido a ponto de ter efetivamente lutado para poder deixar-me de lado. E, tendo nisto sempre fracassado, dou de cara comigo, e hoje amargo o gosto de saber que por vezes já cheguei a desistir de mim.
2011 foi um ano dedicado ao convívio com a derrota. Se nos outros anos ganhei incontestavelmente partidas que nunca de fato me dispus a disputar, desta vez as batalhas que travo e que efetivamente corro o risco de perder são genuinamente minhas. Minhas armas, minhas palavras, minhas ideias, meu caminho. É, houve sim o baque do despreparo, a queda livre, o pranto sorrateiro e a tremedeira desmesurada. Houve sim a multa pela inconsequência, a bronca pela insolência, o susto pelo desconhecido. Houve sim a recaída, o deixar-me engolir pelo frígido e prolongado vácuo do desistir depois da insistência. No entanto, hoje dou as mãos à derrota, por ter sido ela capaz de trazer-me de volta a mim. Prefiro a paz singela à euforia angustiada. Apequeno-me em relação ao mundo, engrandeço-me dentro de mim. Sim. Este foi verdadeiramente um ano meu. E, se nos outros anos apoderei-me da virada para torcer desesperada, embora silenciosamente, pela ruptura, hoje a deixo passar como mera marola, pois não há em mim mais que mera expectativa de continuidade.
And at once I knew I was not magnificent, I could see for miles, miles, miles.
James Blake – Enough Thunder.mp3
