O vento está a soprar lento, lento, e ainda assim ecoa no transpassar das lacunas. Mas hoje não é dia para dizer do vento. Não é dia para dizer da luz que desce fria e oblíqua. Hoje não é dia para soar poético, é dia para soar torto. É dia para dizer que as palavras, tanto quanto os lugares, estão cansadas. Não sei se cansadas de esperar-me sumir ou se cansadas de esperar-me existir, mas estão decerto cansadas. Há algo que já não suportam. E é por isso que não digo do que vem de fora, porque o que vem de fora é sempre igual. Sempre o vento calmo, sempre a luz frígida e tímida, sempre o murmurinho distante a tirar de mim a concentração devida. Mas há algo, e algo aqui. Algo que percebo, apenas, algo que não sei o quê, mas que sinto estar no limiar do seu fragmentar absoluto. Pois que seja, hoje digo das palavras, das palavras que vêm de mim. Mas, se é dia para dizer das palavras, reservarei poucas para ser sincera e dizer que é falso tudo aquilo que forjo de essência, seja com o grito ou com a calma, com o pranto ou com o sorriso. Já não me sinto uma, sinto-me várias e, pior, sinto-me contradizer. Hoje é dia para dizer que, quaisquer que forem, as palavras não podem carregar esse peso.
Disse. Mas digo sempre sabendo que ainda fica algo por dizer. Algo que percebo, apenas, algo que não sei o quê.