Desconexo.

Este desvario ao qual me prendi ata-me a premissas antitéticas, a expectativas vazias, a remédios ineficazes. Travo laços com o impossível, ocupo-me com devaneios sobre o imponderável, conjecturo sobre o inalcançável, e concedo à realidade um infinitesimal instante de atenção, logo inundado pelo esquecimento. Paraliso diante do indecidível e, ao parar, desencontro-me de mim. Deixo-me engolir pela lacuna, deixo-me definir pelo paradoxo. Abandono-me para poder continuar comigo. E torno-me de mim inescapável, mesmo já me tendo perdido de mim. Procuro por mim, em mim, revolvo-me ao avesso por respostas e desisto, por constatar que me desconheço a tal ponto que não sou capaz de saber quando estou mentindo para mim. E este é agora o mais real dos pesadelos – o de precisar de mim, mas não poder mais confiar em mim. O silêncio que me habita propaga-se a preencher-me a vida, esvaziando-a de mim.

Protège-moi.

Ólafur Arnalds – …Og Lengra.mp3

Poslúdio.

Sussurro-me verdades, esporadicamente, mas de um modo covarde, doentio; repito-as e perpetuo-as no meu silêncio, ainda assim sem lhes dar a devida atenção. Atraso-me em mim, desconfiguro-me, abafo-me, nego-me. E deixo-as a vagar no meu ser, preenchendo-me, corroendo-me, escondendo-me.

Ólafur Arnalds – Ágúst.mp3

“How many roads must a man go down before they can call him a man?”

“How do I get back? To where they are.”

I think I would appreciate it. I would love to be this dark and heartless person you think I am. It would do me some good, you know. Discharging me from myself. Rescuing me from this wreck, from these doubts, from these dilemmas, from these regrets. It would save me a lot of bad days, of broken memories, of restless thinking, of unwritten letters that I keep on rewinding silently on my mind. It would save me an entire life. It would save me.

Bon Iver – Wash.mp3

Retidão.

E me impressiona, de um modo evidentemente negativo, a facilidade com que você se apressa em julgar a maneira como vivemos, a maneira como somos incapazes de alcançar a maneira certa de ser feliz, a sua maneira de ser feliz. Impressiona-me o modo como ao seu ver nada abala o seu sucesso e como, mesmo na frustração que os traços da sua expressão desenham e denunciam, você vem nos dizer das suas virtudes. Impressiona-me, de fato, qualquer variação desta melancólica capacidade de valorar a felicidade, que na verdade é uma maneira de subestimar a felicidade, de nivelá-la a qualquer outra realização ou conquista trivial, de esvaziá-la, enfim. E, quando mesurar o sorriso alheio torna-se rotina, parece-me que o senhor desapercebe-se de que do seu, tão reto, na verdade sobra apenas um austero olhar.

The Weeknd – Wicked Games.mp3

Dois mil e onze.

O ano em que a ruptura veio foi também o ano em que eu finalmente pude deixar-me ser quem sempre fui. Dois mil e onze foi uma ducha de água fria que me desceu queimando. Uma ventania de alívio, porém gélida e áspera, a remexer uma vida que já se  revelava abafada, sufocada e dolorosamente morna. Foi-me preciso calar uma parte de mim que me afastava de mim. Eu hoje amargo o gosto de ter acumulado derrotas por tentar ser quem não sou. Amargo o gosto de já ter me orgulhado de ganhar batalhas fúteis, mesquinhas. Amargo o gosto de já ter me perdido a ponto de ter efetivamente lutado para poder deixar-me de lado. E, tendo nisto sempre fracassado, dou de cara comigo, e hoje amargo o gosto de saber que por vezes já cheguei a desistir de mim.
2011 foi um ano dedicado ao convívio com a derrota. Se nos outros anos ganhei incontestavelmente partidas que nunca de fato me dispus a disputar, desta vez as batalhas que travo e que efetivamente corro o risco de perder são genuinamente minhas. Minhas armas, minhas palavras, minhas ideias, meu caminho. É, houve sim o baque do despreparo, a queda livre, o pranto sorrateiro e a tremedeira desmesurada. Houve sim a multa pela inconsequência, a bronca pela insolência, o susto pelo desconhecido. Houve sim a recaída, o deixar-me engolir pelo frígido e prolongado vácuo do desistir depois da insistência. No entanto, hoje dou as mãos à derrota, por ter sido ela capaz de trazer-me de volta a mim. Prefiro a paz singela à euforia angustiada. Apequeno-me em relação ao mundo, engrandeço-me dentro de mim. Sim. Este foi verdadeiramente um ano meu. E, se nos outros anos  apoderei-me da virada para torcer desesperada, embora silenciosamente, pela ruptura, hoje a deixo passar como mera marola, pois não há em mim mais que mera expectativa de continuidade.

And at once I knew I was not magnificent, I could see for miles, miles, miles.

James Blake – Enough Thunder.mp3

2011 top 15 albums

15. Crosses ††† - EP †

14. Maybeshewill – I Was Here For A Moment, Then I Was Gone

13. Black Keys – El Camino

12. Nils Frahm – Felt

11. A Winged Victory for the Sullen - A Winged Victory for the Sullen

10. Foo Fighters – Wasting Light

9. Explosions in the Sky – Take Care, Take Care, Take Care

8. Fleet Foxes – Helplessness Blues

7. Nicolas Jaar – Space Is Only Noise

6. Son Lux – We Are Rising

5. Radiohead – The King of Limbs

4. Ólafur Arnalds – Living Room Songs

3. James Blake – James Blake

2. Bon Iver – Bon Iver

1. Mogwai – Hardcore Will Never Die, But You Will

Distâncias.

É por demais impreciso este caminho que trilho impulsionada pela força inesperada da hesitação. É esta indecisão, que se posterga por um, dois, muitos instantes, e que progressivamente me doma os sentidos e me deixa atada a alguém que nunca escolhi ser. Conduz-me a vidas alheias, a mundos estranhos, a tempos sem história. Entrego-me a um momento de imprecisão, mas persisto presa a uma realidade estreita, e esqueço-me de mim – em mim. Um ponderar exagerado, um imaginar prolongado, um cogitar desmesurado, e estou já por conta de um apanhado de possibilidades, de miríades, de ilusões, que se apresentam, que murcham, que lampejam, que reaparecem, e que me afastam do que me é dado escolher tornar real. Perco-me em uma lacuna da vida, e vivo a vida sem saber de quem.

James Blake – I Only Know (What I Know Now).mp3

The saddest of losers, he can’t lose track of himself.

 

The Album Leaf – Summer Fog.mp3