Emaranhara-se em tal intensidade consigo mesmo que já não era capaz de distinguir o que dizia do que pensava do que fazia do que sentia. Sem saber ser, ele era, assim sem querer.

The Stars of the Lid – Even If You’re Never Awake.mp3

Now is my way clear, now is the meaning plain:
Temptation shall not come in this kind again.
The last temptation is the greatest treason:
To do the right deed for the wrong reason.

Melancholia.

Tempo houve em que podíamos parar, estancar a ventania no dobrar de uma esquina ociosa e tecer considerações melancólicas sobre passado e futuro. Tempo houve em que demos as mãos e conversamos horas a fio sobre os impropérios da vida e sobre as contingências do existir. Hoje, no entanto, todo este ponderar é bobagem, dizem por aí – coisa de quem não consegue ser alguém na vida. Hoje, aceitamos resignadamente a subsidiariedade do viver, que cede espaço a sabe-se lá o quê. Calamo-nos apenas, sem baixar a guarda nem desacelerar o ritmo, embalados por um clima pouco tenro, embora calmo. Ensurdecemos a hostilidade óbvia, silenciamos as ponderações pontiagudas e mascaramos a acidez dos julgamentos com a serenidade de respostas caprichosamente vazias. Sob a pressão de necessidades imperiosas e opacas, deixamo-nos ao relento de pequenas histórias e diminutas vitórias, esmorecidas pelo impiedoso amontoar de dias improdutivos, e por fim deitamo-nos sempre exaustos. Vez ou outra escutamos um apelo choroso vindo de dentro, mas que vem sem explicar por quê, e sem mais demora autorizamos por fim o sono ou a insônia a preparar-nos para o bipe do despertador nos desesperar, logo já, uma vez mais. E assim condensamos nossa fúria em irresignações discretamente sussurradas para ninguém ouvir, exaltamos com urros estridentes realizações aleatórias e comemoramos silenciosamente nossas conquistas mais vibrantes. E, enfim inteiramente sozinhos, misturando o vinho à poeira da taça, brindamos melancólica e secretamente à ingenuidade que já não temos, em tempos em que, para ser alguém, é preciso entregar-se por inteiro à tarefa de não ser ninguém.

Message to Bears – Everything Was Covered In Snow.mp3

Desaparecer.

Cheguei tão tarde que sequer me lembrava de estar atrasada. Havia algum desconcerto, alguma euforia misteriosamente contida, alguma calmaria sorrateiramente agitada. No entanto, era demasiado ruidoso o silêncio para que pudesse permitir-me imergir em mim, e por muitos instantes ainda continuei presa à contingência, dedicando-me aos detalhes, aos acasos, aos triviais atributos das circunstâncias presentes. E, quando enfim pude dar-me conta de que era exatamente ali que sempre quis estar, veio-me como uma torrente um desespero impávido, insaciável. E invadiu-me sem pedir passagem, de uma só vez, trazendo-me também a certeza de que o trem já havia partido sem volta e de que, tamanha era a fraqueza que num átimo abateu-me, já não havia possibilidade de correr em disparada para longe dali. E o reconhecimento da subsistência daquela antiga vontade rasgou em mim um novo abismo, para que coubesse em mim também uma já renovada vontade de esquecer-me de mim. Porque eu, de súbito, soube, num misto de aceitação e desistência, que sempre quis estar ali porque, para mim, ser-me-ia impossível estar ali.

E ali permaneço, sem estar.

Ólafur Arnalds – Everything Must Change.mp3

Ele tem hoje o rosto mais sério, o olhar mais severo, os punhos mais fortes. Ergue-se com destreza, ordena com firmeza, mantém a envergadura com austeridade. Com golpes precisos, deixa todos de mãos atadas à sua autoridade, mas deixa escapar-se por entre os dedos, a cada esbravejada.

Hammock – Raising Your Voice… Trying to Stop an Echo.mp3 

“como un poema enterado
del silencio de las cosas
hablas para no verme

más allá de cualquier zona prohibida
hay un espejo para nuestra triste transparencia

Este canto arrepentido vigía detrás de mis poemas:
Este canto me desmiente, me amordaza”

(PIZARNIK apud ZIZEK, 2008, p. 209)

“O fato primordial não é o Silêncio, mas o Ruído, o murmúrio confuso do Real, no qual ainda não há nenhuma distinção entre figura e fundo.” (ZIZEK, 2008, p. 209)

- I wouldn’t lift a finger for you either.
– See?
– That’s not the difference between us. The difference is that I’m not proud of it.

Desconexo.

Este desvario ao qual me prendi ata-me a premissas antitéticas, a expectativas vazias, a remédios ineficazes. Travo laços com o impossível, ocupo-me com devaneios sobre o imponderável, conjecturo sobre o inalcançável, e concedo à realidade um infinitesimal instante de atenção, logo inundado pelo esquecimento. Paraliso diante do indecidível e, ao parar, desencontro-me de mim. Deixo-me engolir pela lacuna, deixo-me definir pelo paradoxo. Abandono-me para poder continuar comigo. E torno-me de mim inescapável, mesmo já me tendo perdido de mim. Procuro por mim, em mim, revolvo-me ao avesso por respostas e desisto, por constatar que me desconheço a tal ponto que não sou capaz de saber quando estou mentindo para mim. E este é agora o mais real dos pesadelos – o de precisar de mim, mas não poder mais confiar em mim. O silêncio que me habita propaga-se a preencher-me a vida, esvaziando-a de mim.

Protège-moi.

Ólafur Arnalds – …Og Lengra.mp3

Poslúdio.

Sussurro-me verdades, esporadicamente, mas de um modo covarde, doentio; repito-as e perpetuo-as no meu silêncio, ainda assim sem lhes dar a devida atenção. Atraso-me em mim, desconfiguro-me, abafo-me, nego-me. E deixo-as a vagar no meu ser, preenchendo-me, corroendo-me, escondendo-me.

Ólafur Arnalds – Ágúst.mp3

“How many roads must a man go down before they can call him a man?”