Cheguei tão tarde que sequer me lembrava de estar atrasada. Havia algum desconcerto, alguma euforia misteriosamente contida, alguma calmaria sorrateiramente agitada. No entanto, era demasiado ruidoso o silêncio para que pudesse permitir-me imergir em mim, e por muitos instantes ainda continuei presa à contingência, dedicando-me aos detalhes, aos acasos, aos triviais atributos das circunstâncias presentes. E, quando enfim pude dar-me conta de que era exatamente ali que sempre quis estar, veio-me como uma torrente um desespero impávido, insaciável. E invadiu-me sem pedir passagem, de uma só vez, trazendo-me também a certeza de que o trem já havia partido sem volta e de que, tamanha era a fraqueza que num átimo abateu-me, já não havia possibilidade de correr em disparada para longe dali. E o reconhecimento da subsistência daquela antiga vontade rasgou em mim um novo abismo, para que coubesse em mim também uma já renovada vontade de esquecer-me de mim. Porque eu, de súbito, soube, num misto de aceitação e desistência, que sempre quis estar ali porque, para mim, ser-me-ia impossível estar ali.
E ali permaneço, sem estar.
Ólafur Arnalds – Everything Must Change.mp3