Passageiro.

Neste cruzamento não mudou quase nada. É o mesmo vai-e-volta, o mesmo ir-e-vir. Todo dia renovam-se os passos, os traços, os rostos e mantêm-se os ritmos, as pressas e espaços. Mas não tem aquela prosa mais: logo mandam circular. Na verdade, mandavam, hoje em dia nem precisa. É ordem difusa no ar. Consuetudinária, ensinou certa vez um guarda orgulhoso. O direito é o de ir e vir, não o de permanecer, sem propósito e sem destino. Faz sentido, disse o outro. Fiz-me acostumar. E esse cotidiano me encadeou, tapeou, cerceou e, no fim, acautelou. Só que ontem as nuvens se atravancaram, num movimento precipitado. E aquele meu caminho tantas vezes feito e refeito foi se comprimindo, comprimindo, de repente se desfez. Tontura tanta, tive de interrromper o compasso, apoiar os pulsos em um corrimão áspero. Ainda rodeada pelos vidros espelhados que só refletiam a branquitude da neblina, senti a diluir-me em um azedume que se espraiava de dentro pra fora. Não pude contê-lo, e o vi a se esgueirar pela fumaça fugidia dos automóveis enfileirados ao lado, pelas frestas cinzentas do asfalto mal remendado, pelo traçado dos panfletos baratos espalhados na calçada. Entrementes podia ouvir um eco impiedoso: até quando este engodo? Esta insistência na causa prejudicada, no apelo sem objeto, no pedido sem interesse? Parece que foi num rasante que tudo andou, avançou e também que tudo desandou, desabou. Tudo tão concatenado, tão bem entoado, mas de que adianta se é linear e não tem fim? Ainda me custa entender. Tudo tão cheio de vida, mas tão vazio de mim.

Gabriela Parra – The Child Who Talked To The Wind

Encadeado.

Lembro que, naquele dia, eram já seis dias trancafiada dentro de casa, até que saí e te chamei. Precisava. Que desespero infinito, ah, que abraço bom. Eu ainda tinha a voz amassada, o rosto frio, o olhar doído. E sem pensar, eu te disse, sem jeito, não sei mais. Era tanto o ímpeto. Mas parece que o véu tinha começado a escapulir. Que desgosto, que desarme, que desastre. Rito de passagem, queríamos crer. E vai ver era mesmo. Vai saber. Enquanto recuperava a memória, jurei ter-te visto a flagrar-me escondido, com aquele semblante senero de outrora. Aquele mesmo que assustei sem querer e que vez ou outra procuro sem saber.

Message to Bears – I Know You Love To Fall

De soma não nula.

Tranquei a porta e, sem nem mesmo cerrar as cortinas, desabei sobre o sofá velho, tão repleto de alergias. Tanto o cansaço, deixei-me adormecer. O sonho foi agridoce. Vi-me a vaguear por entre aqueles dias. O andar era reto, mas calambeante. Como se o chão me escapasse a cada passo, mas ainda assim não me tirasse as forças. Pelo olhar notava-se logo: estava convicta, mas entorpecida. Também pudera. Era sempre tudo ou nada, tudo ou nada, tudo ou nada. Não perdi, mas, ao cabo, me perdi. No começo, vacilava, ponderava, hesitava. Depois, com o coração tantas vezes anestesiado, mantive o rumo e, pouco a pouco, perdi o tato, perdi o gosto, perdi o rastro. Naquele oceano de promessas e possibilidades, submergi. E, quando voltei, recuperei o ar já sem noção do tempo. Os passos se misturavam, os lances se entremeavam, os pensamentos se amontoavam. Sinestesia. Agora, desperto antes do programado: o sol penetra-me as pálpebras. Abro os olhos, pensando-me mudada. Mas a toalha úmida ainda está sobre o colchão, a cama ainda está por fazer. No fim, não sei dizer ainda se era mesmo preciso tudo aquilo. O certo é que bastou. Compensou. Porque, se pudesse voltar, pra mudar, não mudaria.

Jóhann Jóhannson – A Sparrow Alighted Upon Our Shoulder

2016

James Blake – The Colour in Anything
Bon Iver – 22, A Million
Jóhann Jóhannson – Orphée
Radiohead – A Moon Shaped Pool
The Weeknd – Starboy
Mahmundi – Mahmundi
Anohni – Hopelessness

Céu aberto.

Deixo o refúgio para tomar ar. Leva-me o vento. Sob a cabeça pesada, as pernas vacilam. Ante o rosto cansado, as cores embaçam. Mas ainda não chegou a hora. De retornar, resignar. Retroceder. É preciso enrijar, aprumar. Acontecer. Sem desvios, dúvidas, sobressaltos. Paralisa-me o futuro entremeado nestes apertos firmes de mãos, tão repletos de vazios. Paralisa-me o pretexto encadeado a estas trocas de sorrisos vagos, tão repletos de veredictos. Estes salões, tão amplos, morimbundos. Estes dogmas, tão certeiros, obsoletos. Neste anticlímax, labirinto. Eu só queria respirar, caminhar, sem muletas e sem correntes. Desconciliei. Infiltrei. E quantas cláusulas assinei sem perceber. Não ouvi o apelo de Dédalo. Mas esta lágrima é de outrora. Não quero as escusas nem as flores.

James Blake – The Colour in Anything

Branquidão.

Cansam-me um pouco vossos ritos, costumes, tradições. Há tanto tempo ando a fugir do enfrentamento. Esgueiro-me das ameaças e renuncio aos embates, conflitos, confusões. E, só quando me ponho frente a mim, subo a voz, agravo o tom. O desfecho se anuncia: por vias transversas, alcança-me a fadiga. Agora, neste ápice da exaustão, num relance, sinto-me de repente existir. Sem certeza de triunfo, alegria ou satisfação. Sem vontade de certeza. Deixo-me envolver, deixo-me embalar, deixo-me distrair. Sei que decerto ainda carrego o eco das dúvidas arraigadas que me permeiam o trajeto da voz, o traçado dos gestos, o trejeito do corpo. Mas, por ora, aproveito a trégua inadvertidamente obtida. A fraqueza abafa-me os defeitos, as derrotas, os tropeços. O silêncio cala as urgências. A branquidão oblitera as direções. Num primeiro momento, abato-me pela vertigem. Mas, sem tanta demora, resigno-me. E entrego-me a mim mesma, num ato sem cautela. Como se o passado não pesasse e o futuro não chamasse. Golpe.

James Blake – Timeless
Radiohead – Present Tense

Reverberação.

As recordações, quando vêm, são falhas, entrecortadas, embaçadas. Foi-se o tempo em que me era possível reconstituir cada ato, cada erro, cada acerto. Perco-me entre o que digo e o que ouvi, entre o que fiz e o que vi, entre o que calei e o que quis. A partir desta imprecisão, todo rebobinar tende ao embaraço. Assim, por vezes, forjo pequenas lembranças, na tentativa de conferir algum sentido ao passado acumulado. Numa delas, uma rajada de vento interrompe-me a juventude. Sem cerimônia, esmorece-me as perspectivas e escancara-me o impossível. E, de uma vez, ceifa-me o sorriso, arrebata-me as forças e furta-me as palavras. De fato, lembro-me de, num dos instantes de então, sentir de repente o coração encolher, atônito. Não pude amansar-me; deixei-me abater. Uma imensidão opaca e inerte impôs-se e manteve-me inamovível, agarrada à minha pequenez. Como de costume, antes de entender, estremeci. Creio que daí espraiou-se então a confusão.

M83 – Solitude

Autoirrelevo.

Dos meus tantos caracteres evidentes, escapou-me o óbvio, esta invisibilidade perene. Esta presença que, de tão constante, faz-se distante, fugaz. Tanto neutro, tanto cinza, tanta mediana, tanto tanto-faz. E, além da indiferença, a discrição. E, além da discrição, o esquecimento. Tanta a transparência, desapareço. Irremediável irrelevância. Preclusão.

Drake – Hold On, We’re Going Home

Em causa própria.

O teu desaforo deslizou, insolente. Estremeceu-me num repente o corpo. Nada obstante, fitei-te sem vacilar. Por um átimo, ainda cogitei o duelo. Antecipei os desdobramentos. O entrevero, o trauma, a culpa, o sermão. Tuas palavras ainda se repetiam cá em mim enquanto eu ensaiava a resposta e de soslaio reparava na expectativa pela minha reação. Nessa reflexão, perdi o tempo. Senti cedo o amargor da preclusão. Assisti ao silêncio abraçar-te os impropérios e notei-me na esperança de que o mero constrangimento bastasse. Logo eu, tão descrente, crendo assim, tão obstinadamente. Como se sub-rogável fosse a ação pela omissão. Creio que foi aí que comecei a acostumar-me com a inércia. Por vezes sinto o mesmo azedume daquela derrota precoce, nas tantas outras ocasiões em que de novo me contive sem reação. Do desgaste veio o desgosto. Do azedume, a podridão. De tempos em tempos renovo as desculpas. A velhice, o escândalo, a ineficácia, o cansaço pelas batalhas alheias que me esgotam as forças. Nelas, ossos do ofício: sem ceder, retroceder, resignar. Por aqui, contudo, ainda engulo a seco as afrontas. Desvio o olhar. Deixo-as fugir, impunes. E deixo-me corroer neste autoapequenar continuado.

The Weeknd – Prisoner